*por Carlos H. Moreira Jr.

A história da distribuição de conteúdo como conhecemos hoje pode ser resumida em 2 tweets turbinados em número atualizado de caracteres (2 x até 280):

Carlos * @CarlosMoreiraJr

“Tudo começa em 1890 com produtoras fazendo filmes de menos de 1 minuto. Até quase 1930 os filmes não tinham áudio. Em 1940 nasceram as primeiras redes de TV aberta no mundo. Nos EUA a RCA é pioneira e 10 anos mais tarde Assis Chateaubriand cria TV Tupi no Brasil”

262 caracteres

“Em 1960, da Guerra Fria herdamos a Internet que explodiu em popularidade em 1990 com a World Wide Web. Deste momento em diante as possibilidades se exponencializam e conteúdo áudio visual começa a inundar nossas vidas e a se tornar onipresente”

243 caracteres

No início os gargalos eram muitos. Produção cara, distribuição limitadíssima e modelo de negócio inviável. Poucos eram os privilegiados que podiam se dar ao luxo de se entreter com empreendedorismo e criatividade alheia.

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Ao longo do tempo o mercado de consumo patrocinou a evolução da radiodifusão sustentando os poucos canais de distribuição que transmitiam conteúdo em troca de construção de demanda e de marca. Nesse ambiente, um poder expressivo se concentrou naqueles que conseguiram concessões e licenças de distribuição para as massas. O funil da radiodifusão era (e ainda é!) apertado e impérios de mídia foram construídos com um sólido modelo de negócio.

Hábitos de consumo foram criados e a TV virou o novo ópio do povo chegando com alto poder de influência sobre telespectadores a milhões de lares. Em segundo plano, a evolução da tecnologia impulsionada pelas duas Guerras Mundiais e pela Guerra Fria deu luz a um furo disruptivo de distribuição: a Internet.

Como a internet afetou a inovação no mercado de conteúdo

A Internet trouxe uma via direta ao consumidor. Impressiona ver indústrias inteiras sendo desintermediadas. Agências, revendedores, representantes, “gate keepers”, brokers, redistribuidores entre tantos outros vêm perdendo poder e desaparecendo do mapa.

Numa divagada, veja o que Google fez com bibliotecas e enciclopédias, o que Uber fez com os táxis, Skype com ligações a distância, Airbnb com redes de hotéis, Instagram e câmeras dos celulares com a Kodak, Amazon com as livrarias e Netflix com a Blockbuster.

A Blockbuster foi só o início da saga da Netflix que exploro neste texto mais adiante. (*Outras constatações relevantes no rodapé deste texto. O blogueiro adverte: Leia o rodapé com cuidado. Em caso de reações adversas entre em contato pelo Twitter.)

Esta Internet que corroeu tantos modelos de negócio e criou outros tantos, corroeu também as bases da concentração do poder econômico dos meios de distribuição de conteúdo linear via radiodifusão para as massas. O conteúdo de qualidade, customizado, barato, sob demanda e na palma da mão empurrou as redes de TV para um espectro mais específico da matriz de consumo de conteúdo.

Com a característica de distribuir conteúdo de forma linear e simultânea para uma larga audiência, as redes de TV agora se limitam a conteúdos de aceitação de massa e perdem a sustentabilidade econômica ao tentar atingir tribos de paixões nichadas.

televisão antiga: a inovação afeta o modelo de negócios da distribuição

O papel dos meios tradicionais de distribuição

Seus grupos controladores diversificam seus negócios em outros meios, mas para este meio de distribuição específico restam dois gêneros de conteúdo nobre de massa: o “ao vivo” e o entretenimento exclusivo.

Conteúdo nobre ao vivo é dominado pelo esporte. Esporte de massa é futebol. Futebol bom é futebol caro. Que tal R$1,5 bilhão por ano pelos direitos de TV aberta do Campeonato Brasileiro de Futebol?

Conteúdo nobre e exclusivo de entretenimento pode ser caricaturado por reality shows e novelas. Um único capítulo de novela chega a custar U$300.000 e um capítulo de uma minissérie passa dos U$600.000.

Atenção para o detalhe que estes custos de TV aberta são sustentados por uma geração de receita de uma região específica. Ou seja seu mercado não é Global.

O papel da Netflix nessa mudança

Netflix é um capítulo a parte. Esta é uma empresa a ser observada e acompanhada pois usou o conteúdo de terceiros para construir a sua própria distribuição online. Primeiro ela apareceu no radar como um player de mercado secundário cujo valor percebido era simplesmente aumentar a vida útil de arquivos quase mortos dos grandes produtores de conteúdo.

Se alavancou na Internet para estar presente em todos os lugares – TV conectada, celular, tablet, computador, agregador de conteúdo como Apple TV, console de game como PlayStation entre outros tantos – e construir uma base de consumidores conectados famintos por entretenimento.

Cruzou mares nunca antes explorados e construiu um negócio robusto e Global que, neste instante, no meu radar da bolsa de valores de New York, possui um market cap de U$84 bilhões, enquanto a Fox vale U$49 bilhões e a Time Warner vale U$80 bilhões.

o conteúdo de qualidade virou commodityComo interpretar essa mudança na distribuição de conteúdos?

Ao longo dos tempos, projetos de filmes de qualidade foram declinados porque a capacidade de se escoar e monetizar tal conteúdo era limitado. Com custos de produção decrescentes e a possibilidade de distribuição infinita de conteúdo sob demanda permitidos pela Internet, o jogo virou. Nunca se produziu tanto conteúdo: mais de 1 bilhão de horas por dia são assistidas no Youtube.

A Netflix diminuiu sua dependência de conteúdo de terceiros e investe U$6 bilhòes por ano em conteúdo próprio. Há alguns meses a Disney anunciou ao mercado que retiraria maior parte dos seus títulos e blockbusters da Netflix. Os mercados reagiram e as ações da Netflix caíram aproximadamente 10%.

Numa conta de padeiro percebe-se que o dia possui 24hrs e esta é a capacidade máxima de consumo de conteúdo diário por um indivíduo. Entretenimento online depende menos de marca e mais de qualidade e distribuição. A audiência é atraída por um filme, onde quer que ele esteja, em função da qualidade do seu enredo ou da presença do ator ou da atriz de preferência.

Se você é capaz de satisfazer uma audiência com 24 horas por dia de conteúdo inédito na TV, tablet ou celular, questiona-se: o que faria esta audiência buscar outra fonte de entretenimento? Barreiras de substituição dessa fonte de entretenimento são crescentes a partir do momento que o público já adquiriu um canal e o hábito de consumo. Lembrando que a Netflix produz conteúdo que é distribuído Globalmente e suas receitas também são Globais.

A última fronteira a ser disputada por todos os players é o gigantesco mercado de menor poder aquisitivo sem cartão de crédito que já está conectado e os 3 bilhões de indivíduos que se conectarão através de smartphones ao longo dos próximos 5 anos.

O conteúdo nobre virou commodity

Enfim, por observação, conclui-se que conteúdo nobre virou commodity. Ingrata a missão da Disney ou de qualquer um que tente construir um novo destino de consumo, ou seja, um canal de distribuição online onipresente com a mesma penetração e capacidade de monetização da Netflix.

Difícil resistir ao título “quem foi só ao ar, perdeu o lugar” mesmo quando tudo indica que o futuro nos reserva uma matriz de consumo de conteúdo bem mais complexa e pulverizada do que a que vivemos hoje.

Notas de rodapé

*Footnote 1:

Outras constatações emblemáticas e relevantes: o tempo de vida médio de uma empresa listada no S&P 500 foi de 67 anos em 1920 para 15 anos nos dias de hoje. 5 Mbytes em 1956 custavam U$120.000, 128 Mbytes em 2005 custavam U$99 e 128 Gbytes (1000x mais!) em 2014 custavam os mesmos U$99. A tecnologia 3G dos celulares implementada em 2001 oferecia uma banda de Internet de 384Kbps, a 4G em 2009 oferecia 100 Mbps e a 5G que está chegando irá oferecer 10Gbps (100x mais veloz que a 4G!). Por último, nos próximos 5 anos veremos o números de indivíduos conectados subindo de 1.5 bilhões para 4.5 bilhões, pois 3 bilhões de pessoas que nunca tiveram um celular em mãos estarão adquirindo um smartphone.

Enfim, os ciclos cada vez mais curtos de negócio, o crescimento exponencial de memória, de capacidade de processamento, de velocidade de transmissão de dados, e de mentes conectadas irão deflagrar inesperadas consequências e modelos de negócio. A evolução da humanidade se dará em experiências efêmeras, nosso celular passará a ser uma extensão do nosso cérebro, custo de acesso a tecnologia se aproxima de zero, o conteúdo que consumimos tende a ser todo em vídeo e estará na palma das nossas mãos.

*Footnote 2:

Um olhar curioso do que se repete década após década nos mostra que o mesmo empreendedor disruptivo que inventa novos caminhos é o mesmo que mais tarde é engolido por outros empreendedores que crescem em cima de vácuos deixados e em cima da defesa de estratégias fixas que não evoluem com o tempo. Como se cada indivíduo tivesse um ciclo de inovação finito por vida voltado única e exclusivamente para a busca de estabilidade e perpetuação das conquistas. Raras são as histórias dos que conseguem ser disruptivos com os seus próprios negócios. Amazon e Netflix são empresas disruptivas e chamam a atenção pela capacidade de estarem sempre investindo em inovação e expandindo seus limites. Fórmula eficaz para se manter à frente da competição e novos entrantes.

*Carlos H Moreira Jr é Co-fundador do Esporte Interativo, Empreendedor e Investidor Anjo formado em Engenharia na PUC-RJ e MBA na Babson College. Faz parte também do time de mentores da ACE

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