*por Eduardo Vargas, CEO da Real Valor, startup acelerada pela ACE

Criar uma startup de sucesso já é uma tarefa difícil. Segundo a Fundação Dom Cabral, 25% das startups morrem no primeiro ano de vida. Se mesmo se dedicando integralmente é esse desafio todo, imagina se for trabalhando só meio turno.

Depois de conhecer inúmeros empreendedores, da ACE e de fora eu vi a diferença que fundadores full-time fazem. A pessoa nessa situação consegue ser muito mais produtiva e dedicar mais horas ao trabalho.

Pensa na diferença que isso faz na validação da ideia, criação do MVP, teste de funcionalidades, etc. ao longo de um ano. É por isso que um dos pré-requisitos para uma startup entrar na ACE é que tenha sócios trabalhando em tempo integral.

O problema é que muitos empreendedores simplesmente não conseguem se dedicar full time por causa de dinheiro. Conheço várias pessoas que tem o sonho de empreender, mas continuam no trabalho para conseguir um colchão financeiro. Tem outras, que tocam a startup part-time, porque precisam trabalhar ou fazer freelance para pagar as contas.

Porque eu já tinha dinheiro para me demitir aos 24

Algumas pessoas me perguntam como eu consegui fazer isso tão cedo. A resposta é muito fácil: sendo pão duro e investindo o dinheiro. Existe um nome mais bonito para isso: educação financeira.

Eu nunca tive um salário astronômico, mesmo assim consegui construir um patrimônio que me permitiu focar na startup mesmo sem investidores.

Os três pilares

Um dia li um livro que falava que para juntar dinheiro, existem basicamente 3 pilares: ganhar bem, gastar pouco, investir bem. Obviamente não dá para seguir os três à risca em todos os momentos da vida, mas é importante tê-los em mente.

A lógica é que a diferença entre o que você ganha e o que você gasta deve ser investido. Quanto maior essa diferença, mais dinheiro você vai ter para investir. E quanto melhor você investir esse dinheiro, mais frutos isso vai render.

Quer ter uma ideia da importância desse tripé em números? Se você investe R$1.000 por mês num investimento renda fixa que paga 11% ao ano você faz R$6.089 em três anos. Esse dinheiro foi “criado” sem nenhum esforço.

Você consegue fazer isso sem precisar estudar muito o mercado financeiro. Para você ter uma ideia, eu peguei essa taxa do site tesouro direto no dia 28/06/2018.

O legal desse tripé é que ele não é linear. Como investimentos seguem juros compostos, se você dobrar o valor que você está investindo por mês, o dinheiro gerado lá na frente é mais do que o dobro.

Educação financeira

Educação financeira é um hábito. Do mesmo jeito que é difícil criar o hábito de ir à academia ou de estudar, é difícil se educar financeiramente. O problema é que é muito mais fácil gastar dinheiro do que poupar. Sem contar que é difícil e chato aprender sobre investimentos.

Quando eu estava na faculdade, eu não sabia nada sobre organização financeira e fui aprendendo ao longo do tempo. Hoje eu tenho alguns princípios que eu uso e me ajudam bastante:

1 – Tenha metas financeiras

Eu sempre achei mais fácil gastar dinheiro do que poupar dinheiro. Quando comecei a ter metas financeiras, a tarefa de poupar dinheiro ficou muito mais fácil. Não importa qual seja: comprar um carro no final do ano, fazer uma viagem, pagar um curso, etc.

É muito mais fácil dizer “não” para alguma coisa quando você sabe que está juntando dinheiro com um motivo.

Quando eu estava no meu emprego, lá em 2015 aos 23 anos, eu coloquei uma meta de ter 1 milhão de reais até os 30 anos.

Com o salário que eu ganhava, era basicamente impossível chegar nesse valor. Para fazer isso, eu ia ter que economizar MUITO dinheiro e investir MUITO bem.

Contando essa história agora, parece que eu estava vivendo uma vida infeliz de privação extrema. A verdade é que sabendo onde eu queria chegar, eu ficava mais feliz vendo meu patrimônio crescendo (mesmo sabendo que estava beeeeeem longe de 1 milhão) do que comprando bens materiais.

Ainda não cheguei na minha meta, mas mantenho a disciplina até hoje.

2 – Saiba a diferença Passivo x Ativo

No livro “Pai Rico, Pai Pobre”, o autor classifica os bens como ativos ou passivos. Ativo é tudo que gera dinheiro para você e passivo é tudo que gera despesas. Uma pessoa que tem um carro geralmente acha que tem um ativo, quando na verdade aquilo é um passivo.

Com um carro, você gasta com IPVA, gasolina, manutenção, pedágio, prestação, estacionamento, etc. Além disso, ele se desvaloriza com o tempo. Se você for fazer as contas, geralmente vale mais a pena não ter carro e fazer viagens de Uber.

Meus pais presentearam minhas irmãs com um carro quando elas se formaram da faculdade. Quando eu me formei, a ideia dos meus pais era fazer o mesmo. Mas a verdade é que eu não precisava de um carro naquele momento. Tive a ideia de pedir o dinheiro referente ao carro. Peguei aquele dinheiro e investi.

O que era para ser um passivo, tornou-se um ativo. O que era para ir se desvalorizando com o tempo, e ter despesas mensais se tornou um ativo que se valorizou com o tempo ao ser investido.

3 – Se planeje com antecedência

Todo mundo sabe que quando você compra com antecedência, você paga preços mais baixos. O problema é que muitas vezes a gente acaba não comprando com antecedência por falta de planejamento. E isso significa gastar mais dinheiro quando não é necessário.

Quando eu estava trabalhando como consultor, eu morava em São Paulo sendo que minha família é do Rio. Eu fiz um calendário com a minha família e minha namorada para definir quais datas eu iria para o Rio. Esse planejamento funcionava geralmente para uns 3 ou 4 meses no futuro.

Com isso, eu conseguia comprar passagens aéreas mais baratas do que passagens de ônibus. Eu pagava entre R$180 e R$220 na passagem de ida e volta de avião sendo que â passagem de ônibus saia uns R$230 (sem contar que era muito mais confortável e rápido).

Gabriel Farias e Eduardo Vargas, fundadores da Real Valor

4 – Viva um degrau abaixo

Eu sempre tentei viver um padrão de vida abaixo do dinheiro que eu ganhava. Como tudo que eu falei até agora, é preciso ter disciplina para isso. A vantagem é que quando você interioriza essa ideia, acaba sempre sobrando mais dinheiro para as coisas que realmente importam para você.

Quando eu e o meu sócio Gabriel estávamos começando com o Real Valor, a gente tinha reservado um dinheiro para fazer a empresa dar certo. Esse dinheiro permitia que a gente alugasse uma sala de escritório ou trabalhasse num coworking. O problema é que isso faria com que a gente tivesse menos dinheiro para investir no que trazia valor para o nosso usuário.

A solução foi ir trabalhar na biblioteca da faculdade que eu cursei. Lá, a gente ficava numa mesa ao lado dos alunos, mas conseguia trabalhar de forma sossegada, com wi-fi e ar-condicionado. E o melhor de tudo: de graça.

5 – Não deixe dinheiro parado: invista

Investimento é uma palavra que causa certo desconforto. Investimento não precisa ser algo complexo, feito por economistas que passam o dia inteiro na frente do computador. Existem aplicações de renda fixa que são simples de entender e de investir. Inclusive, o Real Valor tem um blog que foi criado justamente para mostrar que investir pode ser fácil.

Talvez esse tenha sido o melhor hábito que me permitiu ter dinheiro para começar uma startup. Como eu poupava bastante dinheiro e sempre gostei de estudar sobre investimentos, conseguia rentabilidades maiores do que as de renda fixa. Foi investindo que eu e o Gabriel percebemos a dificuldade que era manter o controle da carteira de investimentos e surgiu a ideia para criar o Real Valor.

6 – Não economize quando o assunto é educação

Se tem uma coisa que não devemos economizar é conhecimento. Cursos, livros e palestras, por exemplo não podem ser encarados como custos, por que na verdade são investimentos.

O problema é que é difícil de mensurar o retorno que eles trazem. Mas o que eu aprendi é que sempre vale a pena gastar dinheiro com coisas que agreguem conhecimento. No início do Real Valor, aconteceu um episódio em que a gente conseguiu medir o resultado que investir em educação trouxe para a gente.

Quando a gente estava criando o app, eu e o Gabriel tivemos que responder uma pergunta importantíssima:

O que vale mais a pena? Programar o app ou contratar uma empresa para fazer isso?

Contratar uma empresa iria custar R$20.000 mais o custo de manutenção. Programar o app tinha um problema: nem eu nem o Gabriel sabíamos programar. Qual foi a solução? Compramos um curso online para aprender a programar por R$30 e decidimos aprender e desenvolver o app nós mesmos.

Obviamente não foi fácil. Nós trabalhávamos 12h por dia na biblioteca e sentíamos que não estávamos avançando. Depois de alguns meses as coisas começaram a andar e essa decisão se mostrou ser acertada.

Se for comparar os preços das duas soluções, nós economizamos (no mínimo) R$19.970 ao comprar um curso de programação online. Isso sem contar os benefícios de aprender a programar para dois fundadores de uma startup de tecnologia.

É difícil, mas vale a pena

A verdade é que seguir esses princípios ao pé da letra a todo momento é impossível. Eu me guio por eles, mas não consigo segui-los 100% do tempo. O importante é ter a consciência de que é possível ir juntando dinheiro mesmo sem ganhar muito.

Foi seguindo esses princípios que eu consegui ter dinheiro para empreender full time aos 24 anos.

Se você tem o sonho de empreender e dinheiro é um problema, lembre-se:

  • Tenha metas financeiras
  • Saiba a diferença entre passivo e ativo
  • Se planeje com antecedência
  • Viva um degrau abaixo
  • Sempre invista. Nunca deixa dinheiro parado.
  • Não economize com educação

Espero que essas dicas te ajudem a conseguir juntar o suficiente para conseguir ir em busca do seu sonho como empreendedor.


TAGS: , , , , , , , ,